domingo, 4 de dezembro de 2011

Zumbi

Zumbi

Zumbidos da respiração silenciosa da alma.
Zumbidos das sensações roucas da essência.
Zumbidos da felicidade do íntimo.

Zumbidos da grande máquina Mundo.

Zumbidos da abelha na flor.
O sol na aurora zumbi na gente.

Geadas, ventos de fênix, pensamentos de líquidos:
É viver, é vida, é morrer:
Correr no escuro sem chão,
Correndo de ré para frente.
De costas, de costas!

E tão rápido passa,
E tão rápido se sente,
E tão rápido se põe.
E tão rápido a noite chega...
De costas!

E se esteve Zumbi...


Ferdinando R. Siqueira

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quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Para si o mesmo dele

Para si o mesmo dele

Que riso é esse? Mas que barulho insano, “Quem está aí?”. E o som só aumenta, parece que se aproxima, se aproxima; “Quem está aí? Responda!”. É dia, poucos atentariam contra mim em pleno dia, assim tão aberto, assim tão movimentado. Mas aqui estou, sozinho; onde estou? afinal, me perdi, parece. Lembro que virei numa quadra um tanto distante. Ia cortar caminho.
“Não se aproxime mais, estou com as mãos armadas”, grito; “Não se aproxime mais!”. Bobagem minha, não tenho nada nas mãos, estou tão desarmado quanto esse lugar alheio onde me encontro. Devo ter virado à esquerda e era para ter seguido reto. É isso, só pode ser isso!
O riso aumenta, o riso aumenta. Parece um louco, um psicótico fugido de sabe se lá onde. Se perguntássemos ele diria que veio da Constelação de Orion ou que saiu das profundezas do esgoto. Esgoto? Logo abaixo, o esgoto. Correnteza de esgoto. Cheiro de esgoto...

Beco, estou num beco...

Minhas pernas tremem; apenas minhas pernas? O que é isso? Tenho medo, tenho medo, talvez. Meu coração está acelerado, deve ser ansiedade... planejo correr, mas quero esperar mais um pouco...e por quê?!... planejo fugir, sair desse beco afastado e pegar a rua movimentada logo ali e respirar o ar que há logo ali e andar por onde deveria ter andado antes de entrar aqui.
“Pare de rir!”, uma pausa, pausa de receio, minha voz parece ofegante, “Onde há graça? Quem é a graça?”. Demência, esse riso é uma demência total!... e não para, parece que não falta fôlego para o que quer que o tenha criado. E agora, agora ecoa na minha mente... ritmado, assim como ele é. Ritmado com alternância de alto e baixo som. Riso louco, riso de felicidade absurda, riso de angústia pesada, riso de ódio, riso de serenidade e plenitude, riso do humano humano. Riso insano...

Parou!... não se aproxima mais, ou já nem posso perceber se está próximo ou longe. Não sei nem se existe.

“haha!!HAHAHA!!... a graça? Que tola a pergunta de um tolo. HA!!HAhaHAHA!!!HA! A graça é de você, a graça é você. E onde estou, você me pergunta? Como não sabe, como? HAhaHA!!Ha!!!”

Então, explode o som do palpitar do meu coração, explode uma excitação doida de velocidade, de sangue jorrando pelas minhas veias, explode adrenalina viva e quente. E o som se aproxima, agora percebo, se aproxima e aumenta, deve estar colado em mim agora, deve estar esbarrando nos pelos do meu braço agora, deve estar tocando minha pele agora. Dentro... d-dentro?

Fugir... me sobra fugir! Vou para a rua, a rua movimentada é minha tranquilidade. Loucura, loucura lânguida de risco frenético. Sempre frenético, tudo foi frenético. Eu corri. Corri demais. E antes de escapar pelo horizonte daquela viela, um segundo mínimo antes de pular no meio da calçada da rua vasta e segura, o som parou. Calma, tudo foi calma; e lento, a imagem intera era lenta.

E de súbito, numa velocidade absurda, no instante seguinte ao silêncio lento e total, o som delirante voltou: alto, mais alto, mais alto, mais alto... tão alto que meus ouvidos zumbiram tão freneticamente quanto o ritmo que ouviam... alto, mais alto, mais alto... E aquilo ressoou em mim. E aquilo veio de encontro a mim. Corri, desde aquele momento anterior eu corri: zumbindo.
Quando pulei na calçada, atribulado, confuso, amedrontado, entorpecido, vi os outros, vi a vastidão de tudo aquilo que parecia concreto, e não ouvi mais nada. Calma, tudo foi calma; insanidade não se ouvia mais...
“HAha!!!!!HAhaha!!. Dentro... dentro. Não há como correr de dentro... hahaHA!!HAHAHA!”.
Continuei, apenas.




Ferdinando R. Siqueira

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sábado, 30 de julho de 2011

Talvez apenas dois cachorros

Talvez apenas dois cachorros

Talvez os animais não entendam o estar sozinho, talvez não saibam que existe a solidão, talvez a sintam sem saber e sem entender: encontram algo que os rouba deles, mas também não podem absorver isso.
Eles nem sabem, mas seus donos dariam quase a vida para também não saber e nem entender o que sentem.

Talvez nem bem saibam por que abanam o rabo, mechem as orelhas ou movimentam a cabeça desconsoladamente quando encontram outro animal, e talvez também não saibam por que brincam com esse outro animal desconhecido como se fosse conhecido. Talvez nem saibam por que se sentem da forma que se sentem quando por um átimo de tempo não são apenas um.

Talvez exista neles esse algo que eles desconhecem e que quando percebe que há outro animal vibra uma ansiedade alegre, e eles talvez não entendam isso. Mas eles expressam-se, e nesses momentos partilham-se, pulsam mais felizes: alguns até correm em alta velocidade para lugar nenhum e depois voltam, também em alta velocidade, para lugar algum.
Um frenesi de adrenalina incompreensível, a eles e aos donos, apenas por terem encontrado um companheiro. E depois que se separam, aquele olhar silencioso, pensativo e longe de animal até parece tristeza.


Ferdinando R. Siqueira

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quinta-feira, 14 de julho de 2011

Olhos dos incomodados

Olhos dos incomodados

Cantava livre de ter que não ser o que se era. Cantava no ônibus com outras pessoas a sua volta, aflorando o que ela era dela mesma. Havia se esquecido das encenações que se eram exigidas. Esquecera-se, é a única explicação, do contrário, jamais cometeria aquele delito: ser para ela mesma.

Olhavam-na incomodados. Sentiam-se estranhos por aquela música tão dela. Não foi ela quem compôs, mas era sua voz quem cantava. E se faltava sentimento na música, em sua voz sobrava, sobrava numa explosão de sentimento que fazia os ouvidos do ônibus chiar agudez.

Foi por um tempo breve que cantou.
Cantou enquanto esteve de olhos fechados, vendo nada e ouvindo tudo. Cantou enquanto pensava que estava no escuro que havia dentro de seu âmago. Cantou enquanto se esqueceu de encenar e se lembrou de que ela era ela própria. Cantou por um tempo rápido, mas cantou. E todos ouviram, e todos se incomodaram, e o ouvido de todos chiou.

Ela abriu os olhos e se incomodou com os incomodados que agora a incomodavam: e parou de cantar.


Ferdinando R. Siqueira

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Adeus atrasado

Adeus atrasado


Talvez melhor seria que, a ele, um sorriso nunca tivesse dado e,
não tendo isso acontecido,
talvez melhor seria que ele nunca o tivesse visto,
nunca tivesse visto seu sorriso de humano.

Talvez melhor seria nunca tê-la visto em prantos.
Talvez melhor seria nunca tê-la visto.
Talvez melhor seria.

E partiu.
Talvez melhor seria nunca ter se demorado tanto.
E partiu.

Partiu tentando deixar fora de si o que ela e a demora haviam lhe causado.
Partiu tentando levar apenas o que era seu.

Partiu.
Partido, partiu.
Partiu, partido.


Ferdinando R. Siqueira

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Entardecer

Entardecer

Fitava seus cabelos,
a cor sua dos seus cabelos;
seus suaves fios de dourado refletidos pela luz de sol que adormece
e o seus comprimentos feminino ao vento terno.

E, por um instante,
instante breve, instante longo, instante instantes,
se afetava por seu existir delicado
e sua postura austera.

E tinha, naquela cena amarelada em pensamento,
a vontade animal de estar ao seu lado e beijar seu rosto,
mordiscar sua orelha,
farejar seu calor.

Instinto de sentir seus odores.
Instinto de tocar sua mão.
Instinto de tocar seu íntimo mulher.
Instinto de sentir o infinito da sua alma.

Por um instante, que fosse breve, que fosse longo:
não absorvia senão romance.


Ferdinando R. Siqueira

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quinta-feira, 23 de junho de 2011

Omissões

Omissões

Diz-se alguns milhões de palavras doces e leves, fogo ou vento. Palavras falam e escorrem como voz. Diz-se alguns milhões de palavras sem verdadeiramente alguma palavra dizer.

Fala-se com som suave frases cristalinas que são potáveis e embebedam os ouvidos. E fala-se mentiras em taças de diamante, e se bebe com gosto até a última gota em sabores de vinho. E fala-se, e o som falado encobre a verdade do que não se fala.

Abraça-se pessoas. Abraços táteis, abraços quentes, assim longos e com lágrimas ou com felicidade. Abraça-se pessoas, assim aos montes, e nenhum abraço tem o valor do abraço.

Dá-se sorrisos. Assim amarelados, assim brancos, assim alvos, assim falsos. Bem largos, bem geométricos. Dá-se sorrisos, dos lábios, dos dentes: sem sorrir.

Respira-se da vida, assim, sem o ar dela metabolizar.



Ferdinando R. Siqueira

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